A telefonia móvel ganhará a batalha da conectividade na América Latina?

clock 24/02/2011 TOON-pe


 

Quem já não perdeu uma vez o celular e sentiu que perdeu com ele metade da sua existência? Não é para menos, já que perder o celular significa ficar completamente desconectado e, ainda por cima, angustiado. Sobretudo se se cumprirem as previsões de alguns especialistas que prognosticam o breve desaparecimento da conexão via Web, conforme crê Roberto Musso, presidente executivo do Grupo Digevo, desenvolvedor chileno de soluções tecnológicas para dispositivos móveis.  Conforme explica Musso, isso aconteceria porque “o acesso tradicional a Internet pela Web ou via browser tornou-se arcaico e estático se comparado à experiência de se conectar através de um smartphone, cujos recursos móveis são muito atraentes graças, entre outras coisas, à sua tela sensível ao toque e aos seus sensores de movimento”.

image

Em outras palavras, o que está mudando é a forma como consumimos os conteúdos da Web, observa Lioubov Dombrovskaia, professora do Departamento de Informática da Universidade Técnica Federico Santa María. Ela acrescenta que se antes consumíamos informações através de um computador estacionário, esse consumo agora se diversificou e é feito por outros meios como, por exemplo, “os computadores móveis, os consoles de videogame e, em breve, pelo próprio aparelho de TV. A telefonia celular tem um papel extremamente importante na diversificação do consumo”.

Dombrovskaia vai ainda mais longe e prevê que a telefonia móvel será a principal forma de acesso a Internet entre os usuários latino-americanos. Isto porque “a penetração da telefonia celular na região alcança atualmente 90% da população, ao passo que o alcance da Internet fixa é de apenas 35%”, assinala.

De acordo com um estudo recente da consultoria Wireless Intelligence, de Londres, a telefonia móvel tem atualmente 530 milhões de assinantes na América Latina, mais do que a Europa Ocidental, que tem 430 milhões de assinantes. Portanto, a América Latina é o segundo maior mercado de telefonia celular do mundo depois da região da Ásia-Pacífico, graças ao crescimento observado no Chile e na Argentina, onde há mais celulares do que pessoas.

Outra razão pela qual a telefonia celular desbancará a conexão via Web na região, observa Dombrovskaia, se deve ao fato de que o telefone móvel tem um custo menor se comparado ao computador, motivo pelo qual “muitos fabricantes começaram a subsidiar os smartphones na região, o que permitirá aos usuários ter acesso a celulares mais avançados e conectados a Web”.

Embora Jorge Villalón, professor da Faculdade de Engenharia e Ciências da Universidade Adolfo Ibáñez, reconheça que o preço de um telefone móvel é, em média, de US$ 20, ao passo que um notebook custa US$ 300, e um iPad US$ 500, para ele, “não está provado que os usuários latino-americanos prefiram se conectar a Internet pelo celular a fazê-lo através de um notebook ou de um iPad”. Isso é o mesmo que acreditar que uma boa história é mais bem contada em um filme do que em um livro. “O surgimento do cinema”, diz ele, “não afetou o mercado de livros; pelo contrário, o mercado de livros continuou a crescer”.

É o que pensa também Carlos Castro, professor do Departamento de Informática da Universidade Técnica Federico Santa María de Valparaíso, no Chile. Castro diz que a conexão através do computador continuará a ser a melhor solução para o trabalho no escritório e no lar, uma vez que a conexão a cabo é mais rápida do que a conexão sem fio do telefone celular.

Resumindo, o tráfego de informação proporcionado pela telefonia móvel ainda é muito limitado, salienta Samuel Varas, professor da Faculdade de Engenharia e Ciências da Universidade Adolfo Ibáñez, “e é por esse motivo que hoje nenhum usuário pensa em baixar um filme no seu aparelho celular”.

O rápido desenvolvimento das lojas de aplicativos

Sem dúvida, o hardware dos aparelhos móveis apresenta várias fragilidades se comparado a outros dispositivos móveis, observa Alejandro Mellado, professor da Escola de Engenharia de Informática da Universidade Católica de Temuco. Ele explica que esses aparelhos têm baixa velocidade de processamento, pouca memória, tela de baixa resolução e interfaces de entrada e saída não muito amigáveis. “Contudo, os fabricantes de telefones móveis recorreram à criatividade para superar essas dificuldades de funcionamento desenvolvendo aplicativos atraentes para os usuários, que são também fáceis de usar”, diz.

De fato, hoje em dia as marcas contam com lojas de aplicativos, ou App Stores, que permitem ao usuário baixar aplicativos grátis ou pagos pelo celular. A OviStore, da finlandesa Nokia, por exemplo, conta com mais de 18.000 aplicativos, observa Anthony Yorston, gerente de serviços da Nokia Chile. Ele acrescenta que “os usuários latino-americanos que mais fazem downloads na Ovi são os mexicanos, argentinos, chilenos, costa-riquenhos, venezuelanos, equatorianos, colombianos, peruanos, guatemaltecos e paraguaios”. Yorston destaca que um dos aplicativos gratuitos mais baixados por esses usuários é o eBuddy Mobile Messenger, que permite gerenciar as contas do Facebook e do Twitter através de um único aplicativo.

A Samsung é outro fabricante que aderiu a essa estratégia. Por meio da Samsung Apps, a empresa oferece aos usuários 2.700 aplicativos grátis ou pagos, observa Alex Chauriye, gerente de produtos e serviços da Samsung Telecom do Chile. “Além disso, nossa nova linha de smartphones vem com sistema operacional Android”, diz ele, “que permite ao usuário acessar a loja Android Market, do Google, que conta com mais de 50.000 aplicativos para download gratuito”.

O desempenho do BlackBerry também não fica atrás, uma vez que o App World registra uma média de 1,5 milhão de downloads por dia no mundo todo, observa Matías de la Cruz, gerente sênior de Alianças da Research in Motion para o Cone Sul. Ele explica que um dos aplicativos prediletos dos usuários é o BBM (BlackBerry Messenger), “uma ferramenta de mensagem instantânea que hoje é utilizada por 25 milhões de usuários dos nossos smartphones”.

Dessa disputa acirrada não podiam estar ausentes as lojas Marketplace, do Windows, e AppStore, da Apple, sendo esta última dispõe de mais de 300.000 aplicativos. De acordo com dados da empresa de pesquisas sobre tecnologia IDC, a AppStore registrou 10,9 bilhões de downloads no mundo todo em2010.

Círculo virtuoso

Sem dúvida, as lojas de App Store cresceram, e continuam a crescer, graças à incorporação de desenvolvedores, pelos fabricantes, ao seu modelo de negócios.

Para Dombrovskaia, o modelo da App Store criou um círculo virtuoso entre o fabricante, o desenvolvedor e os usuários, “uma vez que o fabricante descentraliza o desenvolvimento dos aplicativos, compartilhando os lucros com os desenvolvedores que, por sua vez, se encarregam de atender às necessidades cada vez maiores dos usuários, tanto na esfera do entretenimento quanto de negócios”. Portanto, diz Dombrovskaia, os usuários se beneficiam da grande disponibilidade e da variedade de aplicativos, cujo custo é baixo nesse modelo.

Pode-se ver um exemplo claro disso no que fez recentemente o desenvolvedor chileno Grupo Digevo. “Tomamos como referência a Apple”, observa o presidente da empresa, Roberto Musso, “e juntamente com a Universidade Federico Santa María, desenvolvemos um aplicativo para o iPhone batizado de Mobile Sommelier, dedicado aos apreciadores de vinho”. Esse aplicativo, diz ele, oferece um catálogo completo de produtos com sua respectiva combinação, bem como notícias do mundo do vinho, ofertas e promoções.

Além disso, o Mobile Sommelier pega a avaliação que o usuário fez de um vinho recém-degustado e a insere em seu Facebook, de modo que ele possa compartilhá-la com os amigos, observa Musso. “O aplicativo conta também com um Sommelier Virtual que recomenda vinhos ao usuário pelo smartphone com base em sua própria avaliação e gosto.”

O alto custo do serviço

Embora as App Stores tenham se convertido em uma espécie de paraíso, tanto para os fabricantes quanto para os usuários, Castro adverte para o fato de que o custo dos planos de voz e dados para telefone celular na América Latina é elevado em comparação com as tarifas cobradas nos países desenvolvidos. Para ele, essa seria a principal barreira para que o telefone móvel se consagre como o principal meio de conectividade entre os usuários da região.

De acordo com o estudo “Tarifas e gap de acessibilidade dos serviços de telefonia móvel na América Latina e no Caribe”, do pesquisador e professor associado na área de tecnologia da Universidade de San Andrés Hernán Galperin, publicado em 2010, o custo médio do serviço de telefonia celular na América Latina é de US$ 24, valor que é o dobro do custo médio dos países da OCDE (US$ 13), e mais do que o triplo nos mercados do sudeste asiático (US$ 7). De igual modo, o estudo mostra que o Brasil é o país de tarifas mais altas, com um custo médio de US$ 45, vindo em seguida Honduras (26,5), Uruguai (US$ 22), México (US$ 20) e Argentina (US$ 19,2).

O estudo também conclui que os altos preços da telefonia móvel na região se devem, sobretudo, ao alto nível de concentração dos mercados e à enorme carga tributária sobre o serviço. “Para baixar as tarifas”, segundo o estudo, “é preciso aumentar a concorrência no setor mediante, por exemplo, a introdução da portabilidade numérica (isto é, a possibilidade de conservar o mesmo número de telefone, caso o usuário queira mudar de provedor)”.

Dombrovskaia está de acordo com as conclusões do estudo e diz que o custo dos planos na América Latina baixará à medida que a tecnologia celular evoluir e melhorar.

Castro, porém, acrescenta que há outro obstáculo relacionado à qualidade da infraestrutura de comunicações da região. “Hoje, não é difícil alcançar níveis de saturação nas comunicações móveis; portanto, é preciso fazer investimentos para melhorar a rede de infraestrutura.”

Futuro da telefonia celular na região

Embora Mellado reconheça que há certas tarefas que ainda não podem ser realizadas no telefone móvel, como manter um blog, o professor acredita que os fabricantes continuarão a aprimorar o software e o sistema operacional.

Dombrovskaia é ainda mais otimista e prevê que, no futuro próximo, os usuários da região terão acesso a celulares mais baratos, com telas melhores, baterias de maior duração e com interfaces mais amigáveis para a navegação na Web.

Com relação aos fabricantes, a professora crê que haverá no mercado de aplicativos para telefones celulares uma disputa de nível mundial a curto prazo, e que se dará em dois planos: “Em relação ao domínio dos sistemas operacionais dos telefones (iPhone OS, Google Android, BlackBerry OS, Symbian da Nokia e Win7 Mobile da Microsoft); e, em segundo lugar, em relação as App Stores que concentrarão as maiores vendas entre os usuários”, diz.

Além disso, Dombrovskaia observa que é preciso levar em conta que há na região um mercado que, por seu poder aquisitivo, é muito atraente: o Brasil. “O Brasil tem uma demanda elevada e não satisfeita de produtos tecnológicos, o que levou empresas como a Nokia, Motorola, Sony Ericsson e LG a instalarem fábricas em território brasileiro. Isso deverá fazer com que o mercado local impulsione o desenvolvimento de aplicativos na região”, conclui.

por Paulo Silveira

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s